A famosa condenação — Vá plantar batatas!
Publicado por kuinzytao em Agosto 23, 2007
O filósofo Sócrates – grande professor da humanidade, que hoje não lecionaria em universidade nenhuma por falta de titulação e ausência de publicações, já que não deixou livro algum – utilizava a ironia como recurso pedagógico, levando o aluno a reconhecer a própria ignorância, coisa que está difícil de ser obtida hoje em dia por qualquer mestre.
Fonte deste artigo: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/asp030620036.htm
[copyright Jornal do Brasil, 1/06/03]
“Insultos divertidos”
Deonísio da Silva
“O brasileiro é debochado, irônico. Adora um escracho. Temos o costume de utilizar a gozação para exorcizar grandes desgraças. É raro que o figurino dramático nos caia bem. Nativo do Brasil meridional, testemunhei muitas vezes o riso catártico, quase político, purgando a tragédia. As enchentes de Santa Catarina são pródigas em cenas de calamidade pública. Certa vez, assisti a uma entrevista de um senhor cuja casa era levada pela força das águas. A televisão transmitia ao vivo. E a repórter, com aquela obviedade atroz, habitual em muitos telejornalistas, perguntou: ‘é sua casa que ali vai, né?’. No Sul, é mais freqüente a contração de ‘não é’ em ‘né’. E o entrevistado, rindo: ‘era’. E a moça: ‘deu para salvar alguma coisa?’. O paciente entrevistado: ‘nada’. ‘E a sua mulher, as crianças?’. O homem, resignado, sempre rindo, apontou para a esposa e os filhos, encolhidos no barranco: ‘ali’.
Numa coisa, porém, aquele brasileiro diferia do espírito nacional, que preza a exuberância vocabular. Era lacônico, palavra que veio do latim laconicu, breve, resumido, por sua vez procedente do grego lakonikós, em que tinha o mesmo significado. Os habitantes da Lacônia, região da Grécia cuja capital era Esparta, ao contrário dos de Atenas, caracterizavam-se por seu desprezo à oratória, primando por extremados cuidados com a forma física. Aquele náufrago, desconsolado e sorridente, era portador da síndrome que caracteriza o estilo enxuto de Dalton Trevisan, o famoso vampiro de Curitiba, no Paraná, contista que há décadas utiliza a ironia como arma, escrevendo narrativas cada vez mais curtas, principalmente em seus livros mais recentes.
Também os romanos criaram vocábulos curiosos a partir da observação da psicologia dos novos povos descobertos. Um bom exemplo é beócio, que procede do grego boiótios, pelo latim boeotiu, designando habitante da Beócia, província da Grécia antiga. Originalmente, Boiotia, o nome daquela região, significava ‘o país dos combatentes’. Seus moradores, por usarem mais a força física do que as faculdades mentais, tinham fama de ter pouca inteligência. Por isso, beócio tornou-se sinônimo de ignorante, boçal, simplório, ingênuo. O poeta latino Horácio foi um dos primeiros a registrar a má fama daquele povo, ao escrever, repetindo os gregos, que os beócios eram curtos de inteligência. E assim o vocábulo entrou para a língua portuguesa como sinônimo de simplório.
Antigos franceses engrossaram o preconceito ao confundirem béotien, beócio, com boce (atualmente bosse), bócio, que virou sinônimo de crétin, cretino, povo que habitava região dos Alpes. Cretino passou a sinônimo de ignorante porque entre tais habitantes havia muitos com bócio, uma hipertrofia da glândula tireóide, conhecida cientificamente como tireomegalia e popularmente como papo. Em agosto de 1955, o famoso humorista gaúcho Aparício Torelly, o barão de Itararé, registrou em seu Almanhaque: ‘este mês, em dia que não conseguimos confirmar, no ano 453 a.C. (antes de Cristo) verificou-se terrível encontro entre os aguerridos exércitos da Beócia e de Creta. Segundo relatam as crônicas, venceram os cretinos, que até agora se encontram no governo’. O barão encarnou como poucos a ironia brasileira.
Originalmente, a ironia, do grego euróneia, pelo latim ironia, indica modo de a pessoa expressar o contrário do que pensa ou sente. É figura de linguagem de uso recorrente em quase todos os grandes escritores. O filósofo Sócrates – grande professor da humanidade, que hoje não lecionaria em universidade nenhuma por falta de titulação e ausência de publicações, já que não deixou livro algum – utilizava a ironia como recurso pedagógico, levando o aluno a reconhecer a própria ignorância, coisa que está difícil de ser obtida hoje em dia por qualquer mestre. Já o escritor espanhol Jorge Semprún faz com que um personagem assim se dirija a um oponente: ‘companheiro, permita-me que lhe faça sua autocrítica!’. Quanto ao nosso costume de tudo escrachar, lembremos que a própria origem do verbo é irônica. Veio do castelhano escrachar, revelar, que se formou na gíria policial. Escrachado era aquele que tinha retrato nas delegacias, passando depois a indicar indivíduo descuidado nos modos, no vestir ou no falar, desinteressado em ocultar o que quer que seja.
Freqüentemente, porém, apelamos à agricultura para escrachar o próximo, de que é exemplo a famosa condenação vá plantar batatas! A origem desta frase é portuguesa. Antigamente, em Portugal, país mais voltado às navegações e à pesca, a agricultura, conquanto fornecedora de alimentos básicos, era vítima de certo desdém. Algumas de suas culturas eram ainda mais depreciadas, como era o caso da batata, que demorou a entrar para a culinária portuguesa e brasileira. Era tida como alimento vulgar e quem se dedicasse a plantar batatas estava se sujeitando a uma atividade desqualificada. A expressão aparece registrada em O povo português, obra do famoso poeta, folclorista e político lusitano Teófilo Braga, ao comentar a decadência das pequenas indústrias, ocasião em que trabalhadores qualificados, de repente sem emprego, foram aconselhados a plantar batatas.
Gostamos também de misturar alhos com bugalhos. Frase que sintetiza confusão, é de uso corrente na linguagem coloquial desde os tempos dos primeiros cultivos do alho. Com o sentido de coisas desconexas e trapalhadas, foi registrada por João Guimarães Rosa num de seus contos: ‘O senhor pode às vezes distinguir alhos de bugalhos, e tassalhos de borralhos, e vergalhos de chanfalhos, e mangalhos… Mas, e o vice-versa?’.”



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